
Por mais de uma década, a disputa pela atenção do consumidor se organizou em torno de duas siglas: B2B, para negócios entre empresas, e B2C, para a relação com o consumidor final. Porém, esse desenho começa a ficar pequeno. Agentes de inteligência artificial passaram a pesquisar, comparar e recomendar produtos no lugar das pessoas e agora as marcas precisam conquistar não só o cliente, mas também o sistema que decide por ele. É desse movimento que nasce o B2A (Business to Agent), o modelo em que empresas estruturam comunicação, oferta e presença digital para dialogar com agentes autônomos.
O comportamento já mudou, de acordo com um levantamento do Google em parceria com a Ipsos, 82% dos brasileiros utilizam algum recurso de IA em alguma tarefa (seja ela pessoal ou profissional). Para quem vende (online ou não), entender o B2A virou questão de competição de mercado.
Neste artigo você vai ler:
O essencial sobre o B2A
- B2A (Business to Agent) é o modelo em que a empresa organiza sua presença digital para ser encontrada, compreendida e recomendada por agentes de IA, e não apenas por pessoas;
- A virada já está em curso: 82% dos brasileiros usam IA em alguma tarefa no dia a dia (incluindo recomendação de produtos, compras, etc.), segundo Google e Ipsos (janeiro de 2026);
- O funil de vendas não desaparece, mas sua etapa intermediária (pesquisa e comparação) passa a ser delegada a agentes inteligentes;
- O SEO continua valendo, agora acompanhado do GEO (Generative Engine Optimization): preparar conteúdo e dados para serem lidos por assistentes de IA;
- Marcas fortes ganham peso: quando a IA filtra opções, a lembrança de marca influencia o que entra na recomendação;
- O atendimento muda de régua: além do CSAT, surge o BSAT, que mede a satisfação do cliente especificamente com os bots.
O que significa vender para um agente
No B2A, o interlocutor da marca deixa de ser exclusivamente humano. Quando alguém pede a um assistente de IA “encontre o notebook com melhor custo-benefício para edição de vídeo até R$ 6 mil“, esse agente lê especificações, cruza avaliações, compara preços e devolve uma recomendação curta. A empresa que não estiver descrita de forma clara, com dados estruturados e reputação consistente, simplesmente não aparece nessa resposta.
A consequência prática é direta: a informação sobre o produto precisa ser legível para máquinas e confiável para pessoas ao mesmo tempo. Descrições vagas, fichas técnicas incompletas e avaliações escassas, que antes custavam algumas posições no Google, agora podem custar a ausência total na recomendação do agente.
A pesquisa do Google e da Ipsos ajuda a entender o que esses agentes (e os consumidores que os usam) valorizam em cada setor. No segmento de viagens, 42% dos entrevistados disseram usar IA principalmente para encontrar preços menores e descontos. Já a consulta a avaliações e depoimentos se mostrou decisiva em automotivo (38%) e bens duráveis (35%), o que reforça o peso da reputação registrada online.
O que o consumidor brasileiro prioriza ao usar IA, por setor
| Setor | 1º critério | 2º critério | 3º critério |
| Bens duráveis | Especificações (39%) | Reviews (35%) | Comparar marcas (34%) |
| Automotivo | Reviews (38%) | Especificações (37%) | Comparar marcas (32%) |
| Educação | Melhor preço (34%) | Reviews (28%) | Comparar marcas (26%) |
| Viagens | Melhor preço (42%) | Reviews (27%) | Lojas confiáveis (24%) |
| Fashion & Beauty | Reviews / Melhor preço (29%) | Especificações / Lojas confiáveis (28%) | Tendências / Como usar (25%) |
| Mercado & Farmácia | Marcas / Preço / Lojas confiáveis (28%) | Especificações / Como usar (25%) | Especificações / Como usar (25%) |
| Finanças & Telecom | Reviews (28%) | Especificações / Comparar marcas (26%) | Como usar (26%) |
Fonte: Google & Ipsos, “Jornadas com IA”, janeiro de 2026.
A leitura é clara: especificações detalhadas, avaliações reais e sinais de confiança são exatamente os elementos que um agente de IA usa para montar uma recomendação. Quem investe nesses pontos tornando o SEO elegível para ser citado pela máquina.
O funil que continua existindo, mas mais curto
Há uma ideia equivocada circulando de que o funil de vendas teria acabado. Não foi o que aconteceu. Como observa Bruno Peres, professor de marketing digital e coordenador de pós-graduação da ESPM, em entrevista à Época Negócios, o funil permanece (do primeiro contato até a decisão), mas a etapa intermediária foi achatada, porque pesquisa e comparação migraram para os agentes.
Esse encurtamento muda a prioridade do investimento de marketing. Se a IA assume a fase de comparação, o trabalho de topo e de fundo de funil ganha protagonismo. No topo, entra o branding: a marca que já está na memória do consumidor tem mais chance de ser solicitada ou aceita quando o agente apresenta sua lista curta. “A lembrança de marca ainda é um grande diferencial“, resume Peres na mesma reportagem.
Do SEO ao GEO
A otimização para buscadores não morre, mas passa a dividir espaço com o GEO (Generative Engine Optimization), a prática de preparar todo o ecossistema digital para ser compreendido por sistemas de IA. Na prática, isso envolve linguagem clara e sem ambiguidade, dados estruturados, respostas diretas a perguntas específicas e consistência de informação entre os canais (site, marketplace, redes e materiais de apoio).
O ponto de atenção é que esses dois movimentos não competem. Um conteúdo bem estruturado tende a ranquear bem no Google e, ao mesmo tempo, a ser citado por ChatGPT, Gemini, Perplexity e pelos AI Overviews. Tratar SEO e GEO como estratégias separadas é desperdiçar trabalho que pode atender aos dois públicos de uma vez.
Reputação e pós-venda no centro da decisão
Quando o agente pondera “lojas confiáveis” e “avaliações” como critérios, a reputação online vira insumo de venda. Comentários, notas, histórico de entrega e respostas a reclamações passam a alimentar diretamente a recomendação. Negligenciar esses sinais significa entregar à concorrência a vaga na resposta da IA.
O atendimento ao cliente sente o impacto de forma especialmente visível. Segundo Walter Hildebrandi, CTO da Zendesk na América Latina, métricas tradicionais estão sendo revistas com a chegada dos agentes. Tempo de atendimento e tempo de espera, que em interações humanas podem levar de 20 a 30 minutos, caem para poucos minutos ou segundos quando a IA resolve o contato.
Mais do que a velocidade, muda a própria forma de medir satisfação. Ao lado do consagrado CSAT (Índice de satisfação do cliente), começa a ganhar espaço o BSAT, indicador que mede a satisfação do cliente especificamente no atendimento feito por bots. A lógica que se desenha, segundo Hildebrandi, é de divisão de tarefas: se a IA resolve a maior parte dos contatos, os casos que chegam ao time de atendimento tendem a ser os mais complexos, o que exige profissionais mais analíticos e mais empáticos, não menos gente.
Métricas que merecem atenção na era do B2A
Com a mediação dos agentes, alguns indicadores ganham relevância e devem entrar no acompanhamento de varejistas e times de marketing:
- BSAT (Bot Satisfaction): mede a satisfação do cliente no atendimento automatizado, complementando o CSAT;
- Tempo de atendimento e de espera: referência de eficiência que a IA reduz drasticamente e que o mercado passa a cobrar também das equipes humanas;
- Taxa de citação e presença em respostas de IA: com que frequência a marca aparece nas recomendações de assistentes;
- Qualidade e volume de avaliações: insumo direto para a recomendação, sobretudo em automotivo, bens duráveis e varejo de confiança.
A leitura dessas métricas só faz sentido em conjunto. Aparecer na resposta da IA sem sustentar reputação e atendimento gera uma promessa que o pós-venda não cumpre e o agente registra isso na próxima recomendação.
Como começar a se adaptar
Adaptar-se ao B2A não exige reinventar a operação de um dia para o outro, mas sim rever a base. Revisar fichas técnicas e descrições para que sejam completas e legíveis por máquinas. Estruturar dados de produto de forma padronizada. Tratar avaliações e reputação como ativo, não como caixa de entrada de problemas. Investir em marca para permanecer na memória do consumidor mesmo quando a pesquisa for delegada à IA. E ajustar o atendimento para uma operação híbrida, em que bots resolvem o volume e humanos cuidam da complexidade.
O intervalo para agir é agora, enquanto a maioria das empresas ainda trata o tema como assunto distante. Quem estruturar presença digital, dados e reputação antes da concorrência sai na frente na disputa que já não é só pela atenção das pessoas, mas pela preferência das máquinas que decidem por elas.
O B2A é só uma das transformações que estão reorganizando o varejo e o marketing digital neste momento. No blog da e-Plus, você encontra outras análises sobre IA aplicada a vendas, otimização de presença digital e tendências do comércio, conteúdos pensados para quem precisa decidir com base no que está acontecendo, não no que já passou. Vale a leitura para manter a estratégia um passo à frente.
FAQ – PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE B2A
O que é B2A?
B2A é a sigla de Business to Agent (Empresa para Agente). Descreve o modelo de negócios em que empresas estruturam comunicação, oferta e presença digital para serem encontradas, compreendidas e recomendadas por agentes de inteligência artificial, e não apenas por consumidores humanos, que cada vez mais delegam pesquisa e comparação à IA.
Qual a diferença entre B2A, B2B e B2C?
B2B trata da relação entre empresas e B2C, da relação com o consumidor final. O B2A não substitui nenhum dos dois: adiciona um novo interlocutor, o agente de IA, que intermedeia a jornada de compra. Na prática, a marca precisa convencer a pessoa e também o sistema que recomenda por ela.
O SEO ainda funciona com a chegada do B2A?
Sim. O SEO continua relevante para a busca tradicional e ganha como complemento o GEO (Generative Engine Optimization), que prepara conteúdo e dados para serem lidos por assistentes de IA. Conteúdo claro e bem estruturado costuma atender aos dois objetivos ao mesmo tempo, então as estratégias se somam em vez de competir.
O que é BSAT no atendimento ao cliente?
BSAT (Bot Satisfaction) é um indicador que mede a satisfação do cliente especificamente no atendimento feito por bots de IA. Surge como complemento ao CSAT, o tradicional Índice de Satisfação do Cliente, à medida que parte crescente dos contatos passa a ser resolvida por inteligência artificial antes de chegar a um atendente humano.



